A FRENTE NEGRA BRASILEIRA, NASCIDA NA CAPITAL PAULISTA EM 1931, FOI UM DIFERENCIAL PARA OS NEGROS BRASILEIROS.

Confira abaixo os vidéos do documentário sobre a Frente Negra Brasileira no Cultne:

Imprensa Negra Brasileira – Parte 1
Imprensa Negra Brasileira – Parte 2
Imprensa Negra Brasileira – Parte 3
Imprensa Negra Brasileira – Parte 4

A Frente Negra Brasileira nasce oficialmente em São Paulo no dia 16 de setembro de 1931, nos salões das Classes Laboriosas, na rua do Carmo, número 25, sob a presidência de Arlindo Veiga dos Santos (1902-78), contando com a colaboração de membros de outras associações que diziam ter como princípio a missão de resguardar a integridade do cidadão negro brasileiro.  Segundo Flávio Gomes, a palavra “frente” era corriqueira no vocabulário político à época e, pelo que consta, a FNB seria uma das primeiras agremiações a utilizar “o mecanismo de arregimentar pessoas – os denominados ‘cabos’ – para conseguir arrecadar recursos”.  Além de ser uma associação recreativa e beneficente, tinha boa parte de suas atividades focadas na esfera política, transformando-se, em 1936, em partido político.

No estado de São Paulo, de fato, os anos 1930 foram de grande expectativa política para a população negra; diversos foram os  grupos/agremiações formados com os mais variados fins (recreativo, beneficente, político) para unir os negros e servir como um centro de convivência. Principalmente os jovens eram mais empolgados, não importando o local de residência. Era freqüente o vai-e-vem de caravanas saídas do interior paulista para a capital, e vice-e-versa; para fazer propaganda de suas entidades negras locais, em épocas comemorativas o trânsito era maior.
A Frente Negra não representava apenas um motivo para o encontro de negros e suas discussões políticas, ela também fomentava a educação e o entretenimento de seus membros. Composta por vários departamentos, a FNB chegou a criar escolas para alfabetização de crianças, jovens e adultos sócios. Na rua da Liberdade, 196, foram montadas escolas primárias, de línguas e de música. “O objetivo primordial era estimular o ingresso dos negros nas escolas superiores do saber em todos os níveis”.
As palavras de Francisco Lucrecio são confirmadas pelo próprio presidente da Frente; segundo o pesquisador Petrônio Domingues, Arlindo Veiga dos Santos seria uma das primeiras vozes brasileiras a exigir da república políticas públicas em benefício da população  negra que, pela escravidão, sofreria de “entorpecimento cultural”.
Para fazer ventilar seus princípios e idéias entre os brasileiros e sócios, a FNB editava A voz da raça, jornal locado primeiramente na rua Conselheiro Botelho, 156. Tendo como lema Deus, Pátria, Raça e Família, e visto por seus principais colaboradores como um portavoz da Frente, boa parte das ações na entidade era publicada, para dar ciência aos frentenegrinos. Sua primeira edição data de 1933.
Festas com danças e músicas eram promovidas para os associados (que pagavam dois mil réis por mês). Até mesmo um grupo musical, o Rosas Negras, foi criado. “Talvez como nunca, na então ainda recente experiência republicana, a questão racial aparecia tão politizada e articulada com outros temas, envolvendo nacionalidade, emprego, cidadania e políticas de imigração”.
O próprio impulso para a institucionalização da FNB adviria da necessidade que os negros reconheceram de que havia chegado a hora de lutar por seus direitos e de reagir às imposições da discriminação racial. “Reagir foi a palavra de ordem, antes que mais se desenvolvesse a tradição sistemática de negar os seus direitos”.
Propunha a Frente discutir a quebra de estigmas incrustados nos negros brasileiros. Fazer valer pela própria celebração da negritude o valor do negro no país. Por esse motivo o conceito de estigma social acompanha os estudos sobre representações. Como expresso por Denise Jodelet,  as representações são cristalizadas pelas práticas; é pelo dia a dia que elas tomam a aura de inatismo, como se, fora delas tudo fosse inconcebível. O estigma social serviria, portanto, para o locupletar do senso comum; ou seja, na inércia da procura de compreensão das adversidades comportamentais e de preocupação com os fenômenos sociais distintos, grupos, por vezes não muito numerosos, que pretendem percorrer um outro caminho, sofrem discriminação pelo grupo reconhecidamente dominante.
Formada em um cenário de crise econômica (pós-crise de 1929) e de transformações políticas (início da Era Vargas), a FNB mostrou-se como uma  grande oportunidade para os negros superarem suas adversidades; na esfera  política, impunha-se, e era vista pelos associados, como porta-voz do segmento populacional negro. Com discurso forte e promissor, e com grande adesão, surgiram filiais da FNB em várias cidades paulistas e também nos estados de Minas Gerias, Espírito Santo, Bahia e Rio Grande do Sul. “Tal expansão nunca significou, porém, maior centralização institucional”.
Embora cada filial devesse mandar 10% de sua arrecadação à sede em São Paulo, isso era raro. As filiais mal conseguiam pagar por seu próprio sustento. Contudo, o cenário político era de ascensão para o movimento negro como um todo, e “a FNB materializava o avanço na luta pela ‘união política e social da Gente Negra Nacional’”.
A idéia era transformar São Paulo em pólo de disseminação de um projeto político e social que tinha como finalidade ser rigorosamente brasileiro. Daí,  as explicações de uma possível fraqueza do movimento. O que era ser verdadeiramente brasileiro? Nas palavras de seu mais famoso líder, Arlindo Veiga dos Santos, e no próprio lema de A voz da raça, o que definiria a raça brasileira?

Texto extraído do artigo de Bárbara M. de Velasco – Mestre em História Cultural pela Universidade de Brasília (UnB), especialista em docência de História e cultura africanas e pela Universidade Estadual de Goiás (UEG).

Abaixo os vídeos que compõem o documentário em video editado por Ras Adauto e Zózimo Bulbul, tendo como condutores os militantes Amauri Pereira e Yedo Ferreira que entrevistaram em 1985 na sede campestre do Clube Aristocrata em São Paulo , os militantes do movimento negro dos anos 30 e dos anos 70.

Lá estavam os fundadores Aristides Barbosa e José Correia Leite que foram alguns dos personagens que criaram a Frente Negra Brasileira na década de 30, a partir da cidade de São Paulo.


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